segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

"Ainda sou do tempo"


Ainda sou do tempo em que ser crente era motivo de críticas e perseguições.Nós não éramos muitos, e geralmente éramos considerados ignorantes,analfabetos, massa de manobra ou gente de segunda categoria. Os colegas daescola nos marginalizavam. Os patrões zombavam de nós. A sociedade criticavaum povo que cria num Deus moral, ético, decente, que fazia de seusseguidores pessoas diferentes, amorosas, verdadeiras e puras. Não era fácil.Mas nós sobrevivemos e vencemos. Sinto falta daquela perseguição, pois eladenunciava que a nossa luz era de qualidade, e ofuscava a visão conturbadade quem não era liberto. E, por causa dessa luz, muitos incrédulos foramconduzidos ao arrependimento e à salvação. Mas hoje é diferente.Ainda sou do tempo em que os crentes não tinham imagens em suas casas, emseus carros ou como adereços de seus corpos. Nós não tatuávamos os nossoscorpos e nem colocávamos ‘piercings’ em nossa pele. Críamos que os nossoscorpos eram sacrifícios ao Senhor, e que não nos era lícito maculá-los comos sinais de um mundo decadente, um deus mundano e uma cultura corrompida.Dizíamos que tatuar o corpo era pecado. Não tínhamos objetos de culto emnossas igrejas. Aliás, esse era um de nossos diferenciais: nós éramosaqueles que não admitiam imagens em lugar algum. Mas hoje é diferente.
Ainda sou do tempo em que pornografia era pecado. Nós não considerávamosfotos eróticas ou filmes pornô um ‘trabalho profissional’, mas umaprostituição do próprio corpo e uma corrupção moral. Ao nos convertermos,> convertíamos também os nossos olhos, e abandonávamos as revistas> pornográficas, os cinemas de prostituição e os teatros corrompidos. Os que> eram adúlteros se arrependiam e pagavam o preço do que fizeram, e começavam> vida nova. Os promíscuos mudavam seu comportamento e tornavam-se santos em> todo o seu procedimento. Nós, os adolescentes, deixávamos os namoros e os> relacionamentos orientados pelos filmes mundanos, e primávamos por ser como> José do Egito, que foi puro, ou o apóstolo Paulo, que foi decente. Mas hoje> é diferente.>>>> Ainda sou do tempo em que nos vestíamos adequadamente para o culto. Aliás,> além do nosso testemunho moral, nós nos identificávamos pelas roupas. Se> pentecostais, usávamos roupas sociais bastante formais, e éramos conhecidos> aonde quer que íamos, pois ninguém mais se vestia tão formalmente assim em> pleno domingo à tarde. Se de outras denominações, como eu, não chegávamos a> esse extremo, mas nos trajávamos socialmente, com o melhor que tínhamos,> dentro de nossas possibilidades, porque críamos que, se íamos prestar um> culto a Deus, a ocasião nos exigia o melhor, e buscávamos dar o melhor para> Deus. Era a famosa ‘roupa de missa’, ‘roupa de igreja’. Mesmo pobres,> tínhamos o melhor para Deus. E sempre algo decente: camisas sociais, calças> bem passadas, um sapato melhor conservado, um blaizer ou uma blusa bem> alinhada. As mulheres usavam seus melhores vestidos, suas melhores saias e> seus conjuntos mais femininos. Mas hoje é diferente.>>>> Ainda sou do tempo em que nossos hinos falavam de Cristo e da salvação.> Cantávamos muito, e nossas músicas não eram tão complexas como as de hoje.> Mas todos acabávamos por decorá-las. Suas mensagens eram simples e> evangelísticas: ‘foi na cruz, foi na cruz’, ‘andam procurando a razão de> viver’; ‘Porque Ele vive, posso crer no amanhã’, ‘Feliz serás, jamais verás> tua vida em pranto se findar’, ‘O Senhor da ceifa está chamando’; ‘Jesus,> Senhor, me achego a ti’, ‘Santo Espírito, enche a minha vida’, ‘Foi Cristo> quem me salvou, quebrou as cadeias e me libertou’, etc. Não copiávamos os> hits’ estrangeiros, ou as danças mundanas, mas buscávamos algo clássico,> alegre, porém, solene. E dançar o louvor? Jamais! Não ousávamos, nem> queríamos; nunca soubéramos que o louvor era ‘dançante’; as danças deixamos> em nossas velhas vidas mundanas. Porém, mesmo não as tendo, éramos alegres e> motivados. Mas hoje é diferente.>>>> Ainda sou do tempo em que as denominações e igrejas tinham personalidade. As> denominações eram poucas e bastante homogêneas. Sabíamos que a Assembléia de> Deus era pentecostal e usava indumentária formal; os presbiterianos eram os> melhores coristas que existiam; os adventistas tinham uma fé estranha, numa> profetisa semi-contemporânea, mas tinham os melhores quartetos masculinos;> os melhores solistas eram batistas, etc. Nossas liturgias eram bastante> diferentes: os conservadores eram formais, seus cultos silenciosos, enquanto> um orava, os outros diziam amém. Já os pentecostais oravam todos ao mesmo> tempo e cantavam a Harpa Cristã. Nós nos considerávamos irmãos, não há> dúvida. Mas tínhamos personalidade. Hoje tudo é diferente.>>>> E eu não sou velho! Isso tudo não tem 26 anos ainda! Na década de 80 ser> crente era ser assim! Meu Deus, como o mundo mudou! Como a chamada Igreja> Evangélica se deteriorou! Hoje eu sinto vergonha de ser considerado> evangélico!>>>> Hoje é moda ser crente, ou melhor, ‘gospel’. Você é artista pornô, mas é> crente. Você é do forró pé-de-serra, mas é crente. Você é ladrão, mas é> crente. Você é homossexual assumido, mas é crente. Não importa a profissão,> o comportamento, a moral, a índole, ser crente é apenas um detalhe. Aliás,> dá cartaz ser crente: hoje muitos cantores ‘viram crentes’ pra vender seus> CD’s encalhados, pois o ‘povo de Deus’ compra qualquer coisa. Não há> diferença entre o santo e o profano, o consagrado e o amaldiçoado, o lícito> e o proibido, o justo e o injusto. Qualquer coisa serve. O púlpito pode ser> uma prancha de surf, uma cama de motel ou um palanque eleitoral; a forma não> importa. Ser crente é apenas um detalhe, uma simples nomencalatura religiosa>>>>> Hoje os crentes tatuam as suas peles, mesmo sabendo que a Bíblia condena o> uso de símbolos e marcas no corpo de quem se consagra a Deus. Criamos nossos> próprios símbolos, nossos próprios estigmas e nossas próprias tribos. Hoje> há denominações que dão opções de símbolos para que seus jovens se tatuem. O> ‘piercing’ deixou de ser pecado, e passou a ser ‘fashion’, e está pendurado> na pele flácida de roqueiros evangélicos e ‘levitas’ das igrejas, maculando> a pureza de um corpo dedicado ao Deus libertador. Mulheres há que enchem> seus umbigos e outras partes de pequenas ferragens, repletas de vaidade e> erotismo mundano, destruindo, assim, qualquer padrão cristão de consagração> corporal. Meninos tingem seus cabelos de laranja, e mocinhas destróem seus> rostos com produtos, pois agora todo mundo faz, e ‘Deus não olha a aparência> . (Ainda bem, pois se olhasse, teria ânsia de vômito…)>>>> Hoje ir à igreja é como ir ao mercado ou às barracas de feira e de> artesanato: um evento efêmero, informal, meramente turístico. Não há mais> cuidado algum no trajo cultuante. Rapazes vão de bermudas, calções (e,> pasmem os senhores, de sungas!), até sem camisa, porque Deus não é ‘bitolado> babaca ou retrógrado’. Garotas usam suas mini-saias dos ‘rebeldes’ e exibem> umbigos cheios de ‘piercings’, estrelinhas e purpurinas pingando dos cabelos> e roupas, numa passarela contínua do modismo eclesiástico. Se alguém ainda> vai modestamente ao culto, seja jovem, seja velho, ou é ‘novo convertido’,> ou é ‘beato’. É típico encontrarmos pastores dizendo aos ‘engravatados’:> Pra que isso, irmão? Vai fazer exame laboratorial?’ E, continuamente, vão> demolindo qualquer alicerce de reverência e solenidade para o ato do culto.>>>> Hoje as nossas músicas pouco falam de Cristo. Somos bitolados por um> amontoado de ‘glórias’, ‘aleluias’, ‘no trono’, ‘te exaltamos’, ‘o teu poder> , etc. Misturamos essas expressões, colocamos uma pitada de emoções,> imitamos os ícones dos megaeventos de louvores, e gravamos o nosso próprio> cd, que, de diferente, tem a capa e o timbre de algumas vozes, talvez alguns> instrumentos, mas, no mais, não passam de cópias das cópias das cópias. E> Jesus? Ah, quase nunca o mencionamos, e, quando o fazemos, não apresentamos> qualquer noção do que Ele é ou representa para o nosso louvor. Não falamos> mais que Ele é o caminho, a verdade e avida, não o apresentamos como Senhor> e Salvador, não informamos ao ouvinte o que se deve fazer para tê-lo no> coração, apenas citamos seu nome ou dizemos um aleluia para ele.>>>> Hoje, entrar em uma igreja é como ter entrado em todas: é tudo igual. O> mesmo sistema, as mesmas cantorias, a seqüência de eventos, os rituais> emocionais, as pregações da prosperidade, de libertação de maldições ou de> mega-sonhos ‘de Deus’ (como se Deus precisasse sonhar, como se fosse> impotente ou dependente da vontade humana). Transformamos nossas igrejas em> filiais de uma matriz que não sabemos nem aonde fica, mas que se representa> nas comunidades da moda. Não há mais corais, não há mais solistas, não há> mais escolas dominicais fortes, não há mais denominações com características> sólidas, não há mais nada. Tudo é a mesma coisa: uma hora e meia de ‘louvor’> meia hora de ‘ofertas’ e quinze minutos de ‘pregação’, ou meia hora de> palavra profética e apostólica’. Que desgraça!>>>> Hoje trouxemos os ídolos de volta aos templos: são castiçais, bandeiras de> Israel, candelabros, reproduções de peças do tabernáculo do velho testamento> bugigangas e quinquilharias que vendemos, similares aos escapulários> católicos que tanto criticávamos. Hoje não nos atemos a uma cruz sem Cristo,> simbólica apenas. Hoje temos anjinhos, Moisés abrindo o Mar Vermelho, Cristo> no sermão da Montanha. O que nos falta ainda? Nossas bíblias, para serem> boas, têm que ser do ‘Pastor fulano’, com dicas de moda, culinária, negócios> e guia turístico. Hoje temos bíblias para mulheres, para homens, para> crianças, para jovens, para velhos, só falta inventarmos a bíblia gay, a> bíblia erótica, a bíblia do ladrão, a bíblia do desviado. Bíblias puras não> prestam mais. E, mesmo tendo essas bíblias direcionadas, QUASE NINGUÉM AS> LÊ! Trazemos rosas para consagrar, rosas murchas para abençoar e virar> incenso em casa, sal groso para purificar, arruda para encantar, folhas de> oliveira de Israel e água do Rio Jordão (Tietê?) para abençoar, vara de Arão> de Moisés, e sabe lá de quem mais!>> Voltamos às origens idólatras! Parece o povo de Israel, que, ao morrer um> rei justo, emporcalhavam o país com suas idolatrias e prostitutas cultuais.> E se alguém ousa ser autêntico, é taxado de retrógrado. Com isso, surgem os> terríveis fundamentalistas, que abominam tudo, ou os neopentecostais, que> são capazes de transformar a igreja num circo, fazendo o povo rir sem parar> ou grunir como animais.>>>> Meu Deus, o que será daqui há alguns anos? Será que teremos que inventar um> nome novo para ser evangélico à moda antiga? Parece que batista,> assembleiano, presbiteriano, luterano ou metodista não define muita coisa> mais! Será que ainda haverá púlpitos que prestem, pastores que pastoreiem,> louvores que louvem a Deus? Será que seremos obrigados a usar ‘piercing’> para nos filiarmos a alguma igreja? Será que nossos cultos serão naturistas?> Será que ainda haverá Deus em nosso sistema religioso?>>>> É CLARO QUE HÁ EXCEÇÕES! E eu bendigo a Deus porque tenho lutado para ser> uma dessas exceções. É claro que o meu querido leitor, pastor, louvador,> membro de igreja, missionário, também tem buscado ser exceção. Mas eu não> podia deixar de denunciar essa bagunça toda, esse frenesi maligno, esse fogo> estranho no altar de Deus! Quando vejo colegas cuspindo no povo, para> abençoá-los, quando vejo pastores dizendo ao Espírito Santo ‘pega! pega!> pega!’, como se fosse um cachorrinho, quando vejo pastores arrancando miúdos> de boi da barriga dos incautos doentes que a eles se submetem, quando vejo> um evangelho podre arrastando milhões, quando vejo colegas cobrando dez mil> reais mais o hotel, ou metade da oferta da noite, para pregar o evangelho,> então eu me humilho diante de Deus, e digo: ‘Senhor, me proteja, não me> deixa ser assim!’>>>> Que Deus tenha piedade de nós.’>

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